O Desenvolvimento Sustentável e o Espírito Humano
Adaptação da declaração apresentada à Cúpula da Terra (Conferência da Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento), Rio de Janeiro, Brasil
Rio de Janeiro, Brasil
4 Junho 1992
Acima de questões técnicas e políticas
tais como os limites a serem estabelecidos para a emissão
de gases do efeito estufa, como promover o desenvolvimento sustentável,
e quem pagará a conta, a pergunta fundamental com que se
defronta a comunidade munidal é esta: Pode a humanidade,
com seus padrões arraigados de conflito, egoísmo
e conduta tacanha, comprometer-se com uma cooperação
esclarecida e com um planejamento de longo prazo em escala global?
O processo da Cúpula da Terra realçou
tanto a complexidade como a interdependência dos problemas
que a humanidade enfrenta. Nenhum desses problemas as iniquidades
debilitadoras do desenvolvimento, as ameaças apocalípticas
do aquecimento atmosférico e da destruição
da camada de ozônio, a opressão da mulher, o abandono
de crianças e populações marginalizadas,
para citar apenas alguns pode ser abordado com realismo
sem que se considerem todos os demais. É impossível
solucionar qualquer um deles sem uma magnitude de cooperação
e coordenação em todos os níveis que ultrapassa
em muito qualquer esforço anterior da experiência
coletiva da humanidade.
O potencial para tal cooperação, entretanto,
é solapado pela distorção geral do caráter
humano. Embora não sejam comumente discutidas no contexto
dos desafios do meio ambiente e do desenvolvimento, vigoram no
mundo atual certas tendências que incluem a carência
generalizada de disciplina moral, a glorificação
da ambição e da acumulação material,
a destruição crescente da família e das comunidades,
o alastramento da anarquia e da desordem, a ascensão do
racismo e do fanatismo, e a atribuição de prioridade
a interesses nacionais em detrimento do bem-estar da humanidade
as quais todas, sem excessão, destroem a confiança
mútua, alicerce da cooperação.
A reversão dessas tendências destrutivas
é essencial para o estabelecimento da unidade e da cooperação.
Isso exigirá uma compreensão mais profunda da natureza
humana; pois embora a economia, a política, a sociologia
e a ciência ofereçam ferramentas importantes para
a abordagem das crises interdependentes que afligem a humanidade,
uma verdadeira superação do estado de perigo em
que se encontram os assuntos humanos só poderá ser
levada a efeito quando a dimensão espiritual da natureza
humana for levada em conta e o coração humano, transformado.
Embora certos aspectos místicos não
sejam fáceis de explicar, a dimensão espiritual
da natureza humana pode ser compreendida, em termos práticos,
como a fonte das qualidades que transcendem a estreiteza do interesse
próprio. Tais qualidades compreendem o amor, a compaixão,
a tolerância, a fidedignidade, a coragem, a humildade, a
cooperação e a vontade de sacrificar-se pelo bem
comum qualidades de uma cidadania esclarecida, capaz de
construir uma civilização mundial unificada.
As transformações profundas e de vasto
alcance, a unidade e a cooperação sem precedentes,
necessárias à reorientação do mundo
rumo a um futuro de justiça e sustentável quanto
ao meio ambiente, só serão possíveis tocando-se
o espírito humano, apelando-se àqueles valores universais
que, por si só, podem capacitar os indivíduos e
os povos a agir em conformidade com os interesses de longo prazo
do planeta e do gênero humano como um todo. Uma vez explorada,
essa fonte poderosa e dinâmica de motivação
individual e coletiva liberará um espírito tão
profundo e salutar entre os povos da Terra que poder algum será
capaz de resistir à sua força unificadora.
A verdade espiritual fundamental de nossa era é
a unidade da humanidade. A aceitação universal desse
princípio com suas implicações em
relação à justiça social e econômica,
à participação universal em processos decisórios
isentos de antagonismo, à paz e segurança coletiva,
à igualdade dos sexos e à educação
universal possibilitará a reorganização
e administração do mundo como um só país,
o lar da humanidade.
Há mais de cem anos atrás, Bahá'u'lláh
conclamou os governantes e povos da terra a tornarem sua visão
mundialmente abrangente: "Que não se vanglorie quem
ama seu próprio país, mas sim, quem ama o mundo
inteiro."Este desafio ainda deve ser atendido.
BIC Document #92-0604P